Encontro-me num quarto escuro, sem forma, sem cheiro, sem cor, num cantinho escondido dentro de mim mesma, tal lugar que eu buscava nunca encontrar, lugar que mostrava frágil como um pássaro sem penas e a mercê do tempo, com fome e com sede morre...
Estava lá sentada há horas sem conseguir encontrar um sopro de vida ou apenas um chão pra conseguir apoiar meus pés, meus passos tortos que o tempo por si só veio derrubando a cada minuto de boa vontade ou de um sorriso sincero, cada beijo dado com calor, ou até mesmo um suspiro baixo ao pé do ouvido; coisas que não trariam lembrança a ninguém mas a mim concerteza faria toda diferença se eu conseguisse voltar no tempo e fazer tudo de novo repetidas vezes sem parar, sem calar.
Clamava ao vento chorando de pavor ao lembrar cada detalhe, mas a natureza conspirava contra mim e ai vinha sopros de levantar cada pelo meu, de fazer tremer e retornar aquele estado que muito me encontrava. E eu não tinha motivo nenhum pra sair dali e me alimentar de vontade de viver, eu estava com a faca e queijo na mão a decisão entre a vida e a morte era minha, cabia somente a mim a persistência naquela dor ou desistir de tudo, já que a minha sobrevivência já não fazia mais nenhum sentido.
Neste momento eu me encontrava ali, no meio de um mundo de ninguém e que eu era apenas um desses que vagam sem rumo e jogam pensamentos soltos no ar, e que de alguma maneira esses lutavam em voltar até mim. O choro era apenas uma das opções de demonstrar os sentimentos que eu tanto tentava prender dentro de um quarto escuro que me representava fielmente nesta hora.
Vagava pelas ruas sujas como meus pés, tão sujos que traziam o retrato do meu espírito cheio de desejos negros, como meus cabelos longos que alcançavam minha cintura, que por voltas sentia falta da tua mão ou na minha mão delicada e dedicada em te fazer sentir-se bem com meu afago em teus cabelos castanhos como os meus olhos que buscavam os teus sem pudor e assim os teus corriam cada curva do meu corpo nu que despontava dos meus ombros todos os membros que respondiam aos teus carinhos, nisso me tornava mais dócil que um filhote que se encontra protegido no calor do corpo da mãe, assim era eu em teu corpo.
O cheiro da tua pele era irresistível aos meus sentidos, meus olhos transmitiam a mim mais que ternura ao ver o meu sorriso que tanto te agradava e chamava tua boca pra minha começando assim uma nova troca de desejos. Não apenas meu corpo chamava o teu e sim os teus pensamentos chamavam os meus a rodopiar numa ciranda de emoções que eu não aguentava passar um dia sem ter a ti, os teus pensamentos, e o teu corpo em intensa sintonia com o meu. Eu já estava tão acostumada a esse ritmo de sentimentos mútuos que agora não vejo mais outra saída para o meu eterno sofrimento de viver toda uma vida sem ti ter do meu lado, não apenas do meu lado e sim comigo pra toda hora, pro que der e vier na luta diária, mas sempre fazendo com que o jogo da vida não passasse apenas de um jogo simples e terno.
Seria fácil apenas falar de ti, de nós, do mundo ou de qualquer coisa que levasse apenas a você, ou não levasse meus pensamentos sempre seriam teus mesmo que eu não pensasse em ti. Lembro perfeitamente em nos dois, no nosso ultimo momento juntos, um dos muitos momentos que fomos felizes, ou quando fotografamos numa canoa abraçados em meio a vitórias-régias, como lembro, a foto foi guardada num canto em que todos vejam, e nos vejam felizes, ou aquela que eu fotografei você de braços abertos de frente ao mar, onde os ventos varriam os teus cabelos num desarrumar de emoções que mostravam a tua felicidade ao estar comigo em qualquer lugar, mesmo que em um deserto onde tua única sede seria o meu corpo e o meu corpo somente a ti.
Mas se fomos feitos pra viver toda uma vida, como posso aceitar tudo o que aconteceu já que foi tudo em um minuto e toda minha vida escorreu junto da tua entre meus dedos com o teu sangue quente que emanava do teu peito sem interromper-se com minha dor vendo a tua ao sentir a tua vida jorrando com cada gota do seu corpo que molhava o meu e lavava a minha vida como a minha roupa que estava suja de ti, e assim eu sentia também a força da tua mão apertando a minha cada vez menos e a força da tua voz dizendo que pra sempre iria me amar, e a vida não tava acabando era apenas começando um infinito de duvidas que cerca a morte, e ele não queria me deixar só queria que eu fosse feliz onde ele estivesse, mas um gemido de dor o seu ultimo doeu em mim mais do que solavancos e puxou todo ar do meu peito com um grito de horror e sufoco como o de uma ursa que urra ao ver seu filhote levado por uma cobra que de fome devora a presa sem suspirar.
Nunca vou esquecer-me da ultima coisa que você disse expressando com uma lagrima nos olhos;
- Eu te amo...
E a minha de clamor pela tua vida como se coubesse a mim essa decisão;
- Não me deixa só, não me deixa aqui sozinha, eu abro mão de todos os meus sonhos, eu abro mão da minha vida pela tua, eu vou me dilacerar de dor por inteiro, me ajuda a te deixar viver eu quero realizar todos os seus desejos, você sabe que eu não quero nada em troca apenas me não me deixe ficar aos teus pés.
Cercada por muitos, amada por ninguém, é assim que me sinto, só queria ficar ali e nada poderia me afastar de ti naquele momento, apenas a dor que me levantava do chão e me levava a um universo negro onde eu poderia gritar sem ninguém ouvir, chamar teu nome sem ouvir nenhuma resposta tua e lembrar de ti sem te ter.
Quando o socorro medico chegou eu estava lá no chão agarrado contigo como se eu estivesse tentando passar o meu sangue pra repor o teu, a minha vida pra trocar com a tua que teimava em fugir de ti, os médicos me afastaram de ti com esperança de que em um choque você voltasse a mim, primeira tentativa falhou como a minha voz, segunda, terceira e acabei tomando um choque de realidade vendo que eu já não tinha mais a você, e que eu nem mais ninguém poderia fazer você voltar, e minha cabeça rodava pedindo a você que não me deixasse lembrar de tudo em que você servia de escudo pra mim gritando fervorosamente;
- Não me deixe só, eu tenho medo do obscuro e de cada cômodo vazio com sua falta, eu tenho medo da minha insegurança e dos fantasmas que a minha voz trás de encontro ao meu rosto.
Nada mais me põe em pé novamente, mas o sono me livra da tristeza que assola os meus dias e me faz descansar e mais uma vez lembrar da falta em que você faz do meu lado na hora de deitar, me fazendo dormir com seu carinho em meus cabelos longos que te fazia lembrar da infância e das volta que a vida dá, como os meus cachos dourados como o sol que te bronzeava ao ter você disposto a respirar o ar que a natureza soprava em teu rosto; já não aguentava mais o sono me venceu.